Materialismo histórico Introdução ao marxismo · Instituto Lúcia Um método para entender a história a partir de como as pessoas produzem a própria vida. ## Por onde começar a explicar a história Por que a escravidão existiu durante milênios e depois foi abolida? Por que os reis perderam o poder? Há muitas maneiras de responder: a vontade divina, o gênio dos grandes homens, o progresso das ideias. Marx e Engels propuseram começar por outro lugar. Antes de fazer política, filosofia ou arte, os seres humanos precisam **comer, beber, vestir-se e morar**. Para isso, precisam produzir. Então a primeira pergunta sobre qualquer sociedade é: **como ela produz o que precisa para viver, e quem fica com o que é produzido?** Esse modo de estudar a história se chama **materialismo histórico**. "Materialismo", aqui, não tem nada a ver com gostar de dinheiro. Significa partir das condições materiais, concretas, em que as pessoas vivem. ## Forças produtivas e relações de produção Toda sociedade combina duas coisas: - As **forças produtivas**: as ferramentas, as máquinas, as técnicas e o conhecimento com que se produz. - As **relações de produção**: a forma como as pessoas se organizam para produzir. Quem é dono do quê? Quem trabalha para quem? Como o resultado é dividido? O conjunto forma um **modo de produção**. Ao longo da história europeia, que Marx estudou mais de perto, sucederam-se alguns deles: | Modo de produção | Quem trabalha | Quem fica com o excedente | | --- | --- | --- | | Escravista | Pessoas escravizadas | Senhores de escravos | | Feudal | Servos presos à terra | Senhores feudais | | Capitalista | Trabalhadores assalariados | Donos do capital | Esse quadro é um esquema simplificado. Marx não o considerava uma escada obrigatória pela qual todos os povos teriam de passar, e outras regiões do mundo seguiram caminhos próprios. ## Base e superestrutura Marx usa a imagem de um edifício: - A **base** é a economia: as forças produtivas e as relações de produção. - A **superestrutura** é o que se ergue sobre ela: o Estado, as leis, a religião, a escola, a moral, as ideias dominantes. A base condiciona a superestrutura. Em uma sociedade escravista, as leis tratam pessoas como propriedade, e os filósofos explicam por que isso seria "natural". Quando a economia muda, essas leis e ideias entram em crise. Como Marx e Engels escreveram: > Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. Isso não quer dizer que as ideias não importem. A superestrutura também age sobre a base: leis podem acelerar ou frear mudanças, e ideias, quando ganham milhões de pessoas, tornam-se uma força real. ## Como as sociedades mudam As forças produtivas se desenvolvem o tempo todo. Em certo momento, as relações de produção existentes passam a **atrapalhar** esse desenvolvimento. As corporações de ofício e os privilégios feudais, por exemplo, travavam o comércio e a indústria nascentes na Europa. Quando isso acontece, abre-se uma época de conflitos, e a luta entre as classes decide o resultado. Foi assim que a burguesia derrubou o feudalismo. Para Marx, o capitalismo vive uma contradição parecida: produz riqueza em escala nunca vista, mas a mantém concentrada em poucas mãos. A história, portanto, não é feita por heróis isolados nem segue um destino traçado. Ela é feita por pessoas reais, em condições que elas não escolheram: > Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade, em circunstâncias escolhidas por eles próprios. ## Compreender para transformar O materialismo histórico não é só uma teoria para explicar o passado. Marx resumiu seu propósito em uma frase curta, a última de suas Teses sobre Feuerbach: > Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo. ## Para refletir Pense em uma ideia que hoje parece "natural" na sua sociedade, como a de que cada um é o único responsável pelo próprio sucesso. A quem essa ideia favorece? Em que condições materiais ela nasceu? ## Para ler As [Teses sobre Feuerbach](/acervo/teses-sobre-feuerbach) cabem em uma página. Depois, [Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico](/acervo/do-socialismo-utopico-ao-socialismo-cientifico), de Engels, é a introdução mais didática ao método. --- Instituto Lúcia · CC BY-SA 4.0