Marxismo · Ensino médio · aula 3 de 3 · ~4 min de leitura
Materialismo histórico
Um método para entender a história a partir de como as pessoas produzem a própria vida.
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Por onde começar a explicar a história
Por que a escravidão existiu durante milênios e depois foi abolida? Por que os reis perderam o poder? Há muitas maneiras de responder: a vontade divina, o gênio dos grandes homens, o progresso das ideias.
Marx e Engels propuseram começar por outro lugar. Antes de fazer política, filosofia ou arte, os seres humanos precisam comer, beber, vestir-se e morar. Para isso, precisam produzir. Então a primeira pergunta sobre qualquer sociedade é: como ela produz o que precisa para viver, e quem fica com o que é produzido?
Esse modo de estudar a história se chama materialismo histórico. "Materialismo", aqui, não tem nada a ver com gostar de dinheiro. Significa partir das condições materiais, concretas, em que as pessoas vivem.
Forças produtivas e relações de produção
Toda sociedade combina duas coisas:
- As forças produtivas: as ferramentas, as máquinas, as técnicas e o conhecimento com que se produz.
- As relações de produção: a forma como as pessoas se organizam para produzir. Quem é dono do quê? Quem trabalha para quem? Como o resultado é dividido?
O conjunto forma um modo de produção. Ao longo da história europeia, que Marx estudou mais de perto, sucederam-se alguns deles:
| Modo de produção | Quem trabalha | Quem fica com o excedente |
|---|---|---|
| Escravista | Pessoas escravizadas | Senhores de escravos |
| Feudal | Servos presos à terra | Senhores feudais |
| Capitalista | Trabalhadores assalariados | Donos do capital |
Esse quadro é um esquema simplificado. Marx não o considerava uma escada obrigatória pela qual todos os povos teriam de passar, e outras regiões do mundo seguiram caminhos próprios.
Base e superestrutura
Marx usa a imagem de um edifício:
- A base é a economia: as forças produtivas e as relações de produção.
- A superestrutura é o que se ergue sobre ela: o Estado, as leis, a religião, a escola, a moral, as ideias dominantes.
A base condiciona a superestrutura. Em uma sociedade escravista, as leis tratam pessoas como propriedade, e os filósofos explicam por que isso seria "natural". Quando a economia muda, essas leis e ideias entram em crise. Como Marx e Engels escreveram:
Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.
Isso não quer dizer que as ideias não importem. A superestrutura também age sobre a base: leis podem acelerar ou frear mudanças, e ideias, quando ganham milhões de pessoas, tornam-se uma força real.
Como as sociedades mudam
As forças produtivas se desenvolvem o tempo todo. Em certo momento, as relações de produção existentes passam a atrapalhar esse desenvolvimento. As corporações de ofício e os privilégios feudais, por exemplo, travavam o comércio e a indústria nascentes na Europa.
Quando isso acontece, abre-se uma época de conflitos, e a luta entre as classes decide o resultado. Foi assim que a burguesia derrubou o feudalismo. Para Marx, o capitalismo vive uma contradição parecida: produz riqueza em escala nunca vista, mas a mantém concentrada em poucas mãos.
A história, portanto, não é feita por heróis isolados nem segue um destino traçado. Ela é feita por pessoas reais, em condições que elas não escolheram:
Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade, em circunstâncias escolhidas por eles próprios.
Compreender para transformar
O materialismo histórico não é só uma teoria para explicar o passado. Marx resumiu seu propósito em uma frase curta, a última de suas Teses sobre Feuerbach:
Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.
Para refletir
Pense em uma ideia que hoje parece "natural" na sua sociedade, como a de que cada um é o único responsável pelo próprio sucesso. A quem essa ideia favorece? Em que condições materiais ela nasceu?
Para ler
As Teses sobre Feuerbach cabem em uma página. Depois, Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, de Engels, é a introdução mais didática ao método.
Teste o que você aprendeu
1. De que pergunta parte o materialismo histórico?
2. O que faz parte da superestrutura de uma sociedade?
3. O que diz a 11ª tese de Marx sobre Feuerbach?
Fontes desta aula
- Karl Marx. Prefácio de Para a Crítica da Economia Política (1859).
- Friedrich Engels. Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico (1880).